O que é etnofarmacologia?

A etnofarmacologia pode ser definida como “a exploração científica interdisciplinar de agentes biologicamente ativos (encontrados em partes ou produtos de vegetais, animais, fungos, minerais com fins medicinais e tóxicos) tradicionalmente empregados ou observados pelo homem” (Bruhn & Helmstedt, 1981). Note que quando falamos de agentes biologicamente ativos não nos limitamos a plantas, mas incluímos também animais (secreções de sapos como o canuanu, por exemplo) e minerais. Um exemplo de remédio mineral é a areia. Frequentemente ouvimos de populações litorâneas: se você levar uma picada de arraia, coloque areia no local para desinflamar. Nesse caso estamos falando de um remédio, a areia, que não é obtido de  planta, mas diretamente do solo.

Em populações tradicionais encontramos remédios feitos de partes de animais, como os pelos do quati, usados como afrodisíaco e secreções de perereca empregadas como analgésico. É bom notar que no caso das secreções estamos diante não de parte do animal, mas de algo que ele produz, de um produto animal.

Também podemos dar o exemplo do ninho de determinado passarinho usado como remédio: nesse caso não é parte nem produto, é outra coisa. Todo esse conhecimento se entranha na história de cada uma das medicinas tradicionais que encontramos e precisa ser resgatado.

A grande contribuição da etnofarmacologia com as outras ciências é justamente resgatar as medicinas e medicamentos das diferentes culturas indo até elas, pesquisando-as, estudando-as. Para isso a etnofarmacologia se vale da antropologia cultural  (mais especificamente da etnografia), da botânica, da zoologia – e aviso que também é importante ter um pezinho na farmacologia. Conhecer farmácia enriqueceu meu trabalho, ainda na fase de doutorado e pós-doutorado. Se você conhece farmacologia você já vai pensando quando se depara com uma planta: “Como é que eu vou experimentar isso em ratos?”

Vemos, por exemplo, que índias de determinadas tribos amarram na barriga um tipo de planta, uma embira, quando querem conceber filhos do sexo masculino. Quando querem conceber meninas, amarram outra embira na barriga... “Como vou testar isso em ratos?”,  a pergunta  me veio quando me deparei com a situação.

O  trabalho é mesmo árduo. Primeiro eu tenho de identificar a planta que está sendo usada, e para isso vou ter de utilizar os métodos da botânica. Não adianta eu chegar na universidade ou no laboratório e dizer que determinada planta faz crescer 10 centímetros de cabelo por minuto, seu eu não souber dizer o nome científico dessa planta.

Não posso afirmar simplesmente que é uma planta que o povo local chama de crô. Eu preciso coletar amostras dessa planta, recolher  flores e  frutos. E tenho de levar esse material a um taxonomista, para que ele possa definir com precisão: essa planta chamada popularmente de crô é um Chenopodium ambrosioides L. (erva-de-santa-maria), por exemplo.

Identificar a planta é só o começo. Além de coletar amostras das plantas, com folhas, flores, frutos, raízes, o etnofarmacólogo tem de pesquisar de que forma ela é usada por determinada população local. Entrevistando a população, lendo estudos, precisa anotar quais são as indicações e quais as contra-indicações desse medicamento local.

Muitas pessoas pensam que etnofarmacologia e etnobotânica são a mesma coisa. A etnobotânica estuda o uso das plantas pelas populações – mas abrange todo tipo de uso, incluindo as plantas que servem para fazer colares e adornos, madeiras para construir barcos, plantas usadas para fazer roupas e também as utilizadas como remédio.

Depois de coletados o material e os dados nos locais da pesquisa, o próximo passo do etnofarmacólogo é levar esse material para especialistas de outras disciplinas, como o taxonomista, que identifica a planta, e o farmacologista, que analisa seus princípios ativos. O pesquisador também deve consultar  a literatura que trata da planta e da população que a utiliza.

A pesquisa é necessariamente multidisciplinar e culmina com testes em animais, nos quais doenças são induzidas e a eficácia da planta no tratamento verificada. É a hora em que são investigados e testados os agentes biologicamente ativos usados ou observados pelo homem. A meta é que a pesquisa resulte em patentes e royalties para o laboratório -  que com isso paga seus investimentos nos levantamentos etnofarmacológicos, nos estudos farmacologia e fitoquímica, nos testes e na elaboração do novo medicamento.

É importante ressaltar que a  etnofarmacologia é abrangente e não se limita às plantas: estuda tanto vegetais como animais, algas, fungos e minerais. Entre os métodos que aqui especificamos, fica evidente que a etnofarmacologia é o que mais funciona quando a proposta é encontrar um novo medicamento. A chance de fazer gol é muito maior. 

Como vamos ver a seguir, se usarmos o critério aleatório, ou randômico, de coletar indistintamente plantas de determinada região, a chance de encontrar um princípio ativo antineoplásico (isto é, que pode funcionar no tratamento do câncer) é de 6%. Se a pesquisa for orientada pela etnofarmacologia, entretanto,  probabilidade sobe para 25%. A chance de encontrar um novo anti-hipertensivo aumenta de 31% na coleta ao acaso para 44% na coleta segundo os critérios da etnofarmacologia. Seguindo a mesma comparação de métodos, a probabilidade de desenvolver um novo anti-helmíntico (medicamento que combate vermes) sobe de 9,8% na coleta randômica para 29,3%. E a diferença pode ser muito maior no caso de doenças específicas, como Aids (de 8,5% para 71,4%).

A razão para o sucesso da etnofarmacologia no desenvolvimento de novos remédios está no fato de ela fornecer pesquisas de cada região praticamente prontas, e que foram desenvolvidas pelos povos tradicionais ao longo de séculos e milênios. Leia mais...

Uma Fito conversa entre
Eliana Rodrigues e Sérgio Tinoco Panizza.