Uma Fito conversa entre
Sérgio Tinoco Panizza e Eliana Rodrigues.

O que é etnofarmacologia?
A etnofarmacologia pode ser definida como “a exploração científica interdisciplinar de agentes biologicamente ativos (encontrados em partes ou produtos de vegetais, animais, fungos, minerais com fins medicinais e tóxicos) tradicionalmente empregados ou observados pelo homem” (Bruhn & Helmstedt, 1981). Note que quando falamos de agentes biologicamente ativos não nos limitamos a plantas, mas incluímos também animais (secreções de sapos como o canuanu, por exemplo) e minerais. Um exemplo de remédio mineral é a areia. Frequentemente ouvimos de populações litorâneas: se você levar uma picada de arraia, coloque areia no local para desinflamar. Nesse caso estamos falando de um remédio, a areia, que não é obtido de planta, mas diretamente do solo.
Em populações tradicionais encontramos remédios feitos de partes de animais, como os pelos do quati, usados como afrodisíaco e secreções de perereca empregadas como analgésico. É bom notar que no caso das secreções estamos diante não de parte do animal, mas de algo que ele produz, de um produto animal.
Também podemos dar o exemplo do ninho de determinado passarinho usado como remédio: nesse caso não é parte nem produto, é outra coisa. Todo esse conhecimento se entranha na história de cada uma das medicinas tradicionais que encontramos e precisa ser resgatado.
A grande contribuição da etnofarmacologia com as outras ciências é justamente resgatar as medicinas e medicamentos das diferentes culturas indo até elas, pesquisando-as, estudando-as. Para isso a etnofarmacologia se vale da antropologia cultural (mais especificamente da etnografia), da botânica, da zoologia – e aviso que também é importante ter um pezinho na farmacologia. Conhecer farmácia enriqueceu meu trabalho, ainda na fase de doutorado e pós-doutorado. Se você conhece farmacologia você já vai pensando quando se depara com uma planta: “Como é que eu vou experimentar isso em ratos?” Vemos, por exemplo, que índias de determinadas tribos amarram na barriga um tipo de planta, uma embira, quando querem conceber filhos do sexo masculino. Quando querem conceber meninas, amarram outra embira na barriga... “Como vou testar isso em ratos?”, a pergunta me veio quando me deparei com a situação. O trabalho é mesmo árduo. Primeiro eu tenho de identificar a planta que está sendo usada, e para isso vou ter de utilizar os métodos da botânica. Não adianta eu chegar à universidade ou no laboratório e dizer que determinada planta faz crescer 10 centímetros de cabelo por minuto, seu eu não souber dizer o nome científico dessa planta.
Não posso afirmar simplesmente que é uma planta que o povo local chama de crô. Eu preciso coletar amostras dessa planta, recolher flores e frutos. E tenho de levar esse material a um taxonomista, para que ele possa definir com precisão: essa planta chamada popularmente de crô é um Chenopodium ambrosioides L. (erva-de-santamaria), por exemplo. Identificar a planta é só o começo. Além de coletar amostras das plantas, com folhas, flores, frutos, raízes, o etnofarmacólogo tem de pesquisar de que forma ela é usada por determinada população local. Entrevistando a população, lendo estudos, precisa anotar quais são as indicações e quais as contraindicações desse medicamento local.
Muitas pessoas pensam que etnofarmacologia e etnobotânica são as mesmas coisas. A etnobotânica estuda o uso das plantas pelas populações – mas abrange todo tipo de uso, incluindo as plantas que servem para fazer colares e adornos, madeiras para construir barcos, plantas usadas para fazer roupas e também as utilizadas como remédio. Depois de coletados o material e os dados nos locais da pesquisa, o próximo passo do etnofarmacólogo é levar esse material para especialistas de outras disciplinas, como o taxonomista, que identifica a planta, e o farmacologista, que analisa seus princípios ativos. O pesquisador também deve consultar a literatura que trata da planta e da população que a utiliza.
A pesquisa é necessariamente multidisciplinar e culmina com testes em animais, nos quais doenças são induzidas e a eficácia da planta no tratamento verificada. São a hora em que são investigados e testados os agentes biologicamente ativos usados ou observados pelo homem. A meta é que a pesquisa resulte em patentes e royalties para o laboratório - que com isso paga seus investimentos nos levantamentos etnofarmacológicos, nos estudos farmacologia e fitoquímica, nos testes e na elaboração do novo medicamento.
É importante ressaltar que a etnofarmacologia é abrangente e não se limita às plantas: estuda tanto vegetais como animais, algas, fungos e minerais. Entre os métodos que aqui especificamos, fica evidente que a etnofarmacologia é o que mais funciona quando a proposta é encontrar um novo medicamento. A chance de fazer gol é muito maior.
Como vamos ver a seguir, se usarmos o critério aleatório, ou randômico, de coletar indistintamente plantas de determinada região, a chance de encontrar um princípio ativo antineoplásico (isto é, que pode funcionar no tratamento do câncer) é de 6%. Se a pesquisa for orientada pela etnofarmacologia, entretanto, probabilidade sobe para 25%. A chance de encontrar um novo anti-hipertensivo aumenta de 31% na coleta ao acaso para 44% na coleta segundo os critérios da etnofarmacologia. Seguindo a mesma comparação de métodos, a probabilidade de desenvolver um novo antihelmíntico (medicamento que combate vermes) sobe de 9,8% na coleta randômica para 29,3%. E a diferença pode ser muito maior no caso de doenças específicas, como AIDS (de 8,5% para 71,4%).
A razão para o sucesso da etnofarmacologia no desenvolvimento de novos remédios está no fato de ela fornecer pesquisas de cada região praticamente prontas, e que foram desenvolvidas pelos povos tradicionais ao longo de séculos e milênios.
CRITÉRIOS PARA ACHAR UM REMÉDIO
Que critérios a Academia e a indústria farmacêutica usam para estudar potenciais bioativos que podem resultar em novos medicamentos? Os cinco critérios principais são: coleta randômica, quimiotaxonomia, zoofarmacognosia, etnofarmacologia e ecologia química.

Coleta randômica
Por esse critério os pesquisadores vão a determinado país ou região e coletam plantas aleatoriamente. A chance de essa coleta resultar num remédio foi calculada em 1 para 10 mil. É um jogo em que fazer gol é muito difícil.
Quimiotaxonomia
Esse critério dá um salto em relação ao método da coleta aleatória. Ele parte do conhecimento que nós já temos sobre a química das plantas. Sabemos que determinadas famílias de plantas têm propriedades farmacológicas bem definidas. É o caso das Solanáceas, produtoras de anticolinérgicos, como atropina e escopolamina, e de outras famílias como as Euforbiaceae, as Rutaceae e as Apocynaceae. Se eu for uma indústria farmacêutica ou uma universidade e quiser patentear novos remédios, uma boa estratégia será mandar pesquisadores em campo e estudar famílias de plantas cujo potencial já é conhecido, em busca de novos princípios ativos.
Zoofarmacognosia
A zoofarmacognosia parte da observação de como os animais usam naturalmente as plantas. É o caso de observar bichos, como macacos e cachorros, e observar as plantas que procuram quando sentem algum desconforto. Podemos nos valer dessas indicações para descobrir novos potenciais bioativos.
Etnofarmacologia
O critério da etnofarmacologia ou etnofarmacognosia resgata o uso que as populações tradicionais de cada região fazem das plantas medicinais. Para obter essas informações, o pesquisador vai conviver com pajés, babalorixás, parteiras e outros agentes médicos locais e ver como eles trabalham. A etnofarmacologia identifica que plantas as populações tradicionais usam como remédio. Ela parte de indicações do tipo: “Esta planta serve para eliminar vermes, esta é para dor de estômago”. Foi assim que ficamos sabendo, por exemplo, que a Protim sp. é uma planta vermífuga, a Simaruba sp. é antidiarreica, a Bursera sp. combate diabetes e a Strychnos sp. trata gastrite. A chance de fazer gol é muito maior porque essa medicina já passou pelo laboratório das populações locais: nesse caso a probabilidade de sucesso é de 300 para mil.
Ecologia química
Existe também um quinto critério que pode orientar a pesquisa de um novo remédio: é o da ecologia química. Ela se volta para a relação que existe entre os animais e as plantas ao longo da coevolução. Como as plantas não têm pernas para fugir nem dentes param se defenderem, sua saída é desenvolver estratégias químicas de defesa. Elas produzem diferentes metabólitos, um número imenso de moléculas químicas, para se defender da herbivoria dos animais, por exemplo. E é preciso ter em mente que mesmo uma substância que é tóxica para os animais pode também ter potencial medicinal.
Mundo desconhecido
O que nós sabemos sobre as plantas medicinais existentes no mundo e no Brasil? Não sabemos nada. Embora eu reconheça que na verdade hoje em dia sabemos muito, tenho plena consciência de que isso é muito pouco, diante do que ainda existe para descobrir. Estima-se que no mundo existam de 250 mil a 300 mil espécies de plantas superiores, considerando tanto as angiospermas, que produzem fruto verdadeiro, como laranja e morango, como as gimnospermas, sem frutos, como samambaias e pinheiros.
Um levantamento feito em 1997 mostra que só 1% desse potencial tinha sido ou estava sendo explorado. Ou seja, isso é praticamente nada. Como já se passaram alguns anos, é possível que o conhecimento tenha aumentado para 2% ou 3%, o que continua sendo muito pouco. Continuamos a não saber nada.
As angiospermas são 99% das plantas que a gente vê por aí no dia a dia. Quer dizer, não precisamos nos estressar quando vemos uma planta: a maior probabilidade é de ela ser uma angiosperma. As gimnospermas, mais raras, mas bastante distribuídas pelo mundo, são as samambaias, avencas, pinheirinhos de Natal aqueles tristes ciprestes que ornamentam os cemitérios. A mais famosa das gimnospermas em termos de farmácia é a Ginkgo biloba - a vedete da fitoterapia, usada para melhorar a circulação e a memória. Ela não produz fruto, a semente nasce nua direto dos galhos. Das cerca de 55 mil angiospermas que existem no Brasil, 99,6% são desconhecidas para a ciência. Elas são um universo sobre o qual nada sabemos, desconhecemos sua farmacologia e sua fitoquímica. E isso que não estamos nem falando das plantas inferiores, que são as briófitas, pteridófitas e dos fungos e das algas, que são de outros reinos, mas também são utilizadas para obter medicamentos. E cada uma dessas plantas possui propriedades químicas, úteis ou não. Ou seja, se hoje todo mundo quiser estudar as plantas, se todas as universidades quiserem estudar as plantas, a natureza é um prato cheio, com muitíssima coisa ainda por descobrir. Cada planta é uma indústria de moléculas químicas. E cada uma delas não produz só uma molécula, produz centenas. Uma simples folha pode conter 500 substâncias diferentes. Não dá para dizer que estamos diante de um campo já esgotado, que não há mais nada para dizer,... Faltam pesquisas, que exigem dedicação e trabalho. O pesquisador tem de virar a planta de cabeça para baixo, analisar quimicamente tanto as folhas como as raízes, as flores, os caules...

Atlas da biodiversidade
O Brasil é o país que detém a maior biodiversidade em todo o planeta. Existem em território brasileiro 55 mil plantas angiospermas, das pouco mais de 300 mil plantas superiores existentes na Terra. A Colômbia fica em segundo lugar, com 45mil. A China tem 27 mil angiospermas e África do Sul, 21 mil. Partindo do primeiro critério de busca de medicamentos que acabamos de abordar, o da coleta randômica, já é possível perceber que as chances de sucesso se concentram no Brasil e nos países da faixa tropical do planeta.
Os países tropicais se destacam no mundo todo pela grande variedade de plantas existente em suas paisagens naturais. Os campeões de biodiversidade no mundo são: Brasil, Colômbia, Peru, Equador, Venezuela, México e Estados Unidos, na América; República Democrática do Congo, África do Sul e Madagascar, na África; além de Malásia, Indonésia e Austrália, no Pacífico.
Os cinco primeiros países dessa lista já detêm 50% da biodiversidade do planeta, com metade das plantas superiores da Terra (Joffe & Thomas, 1989). Os onze países top de biodiversidade concentram cerca de 60% das plantas do mundo. Se for considerada toda a área tropical do planeta, essa proporção sobe para 70%. É a região em que ocorre maior concentração de biodiversidade.

Biomas brasileiros
O Brasil tem grandes biomas, como a Amazônia, a Caatinga, o Cerrado, os Campos Sulinos, a Mata Atlântica, o Pantanal, a Zona Costeira, e regiões de transição como Amazônia-Caatinga, Amazônia-Cerrado e Cerrado-Caatinga. Nos Pantanais matogrossenses, por exemplo, existem populações formadas por índios e descendentes de africanos – quer dizer, não são nem índios nem africanos, são uma mistura. O uso das plantas difere conforme as populações tradicionais de um mesmo bioma. Se pesquisando os índios de diferentes regiões da Amazônia, constamos que eles não usam as plantas da mesma forma. Cada etnia tem sua identidade, sua forma de ver o mundo, sua cosmologia. Mesmo que dividam as mesmas plantas, eles as enxergam e lidam com elas de forma diferente. Essa é a riqueza que o etnofarmacólogo resgata. Afinal, é para isso que a gente existe. Parece que nós, os etnofarmacólogos, só existimos para nosso trabalho de viajar e passar muito tempo em lugares remotos. Estou até conformada, parece que é para isso que servimos nesta vida. E até no casamento enfrentamos problemas... Eu brinco dizendo que ficamos tanto tempo isolados no mato que quando voltamos outra pessoa já pode ter ocupado nosso lugar...
Remédios genuinamente brasileiros
Vimos que o Brasil ocupa o primeiro lugar no mundo em termos de angiospermas, as plantas com fruto, vedetes da criação de remédios: são 55 mil plantas superiores que produzem fruto. Os dados sobre fauna também são impressionantes, com cerca de 100 mil espécies animais.
Outra característica importante do Brasil é a grande ocorrência de endemismo. E o que é isso? Endemismo é quando a distribuição genética de uma espécie animal ou vegetal está restrita a determinada região do planeta e não ocorre em nenhuma outra. Na Suíça, por exemplo, até recentemente só tinha sido comprovada a existência de uma única planta endêmica. Recentemente cientistas suíços anunciaram eufóricos que esse índice aumentou em 100%, porque descobriram outra planta... Agora eles têm duas... Na Alemanha, foram identificadas 16 espécies endêmicas, no Reino Unido, 73. Mas no México, que fica na região tropical do planeta, a quantidade de espécies endêmicas sobe para 3.376. E o endemismo é ainda muito maior na região amazônica, com 25 mil a 30 mil espécies que só ocorrem aqui (Cunningham, 1994). É preciso considerar que a região amazônica não se restringe ao Brasil e inclui países vizinhos como Colômbia, Peru, Venezuela, Guianas. Mas também é bom levar em conta que o Brasil não tem só a Floresta Amazônica. Só no Cerrado foram identificadas mais de 6 mil espécies endêmicas. E na Mata Atlântica foram registradas mais de 8 mil espécies endêmicas. Não temos dados consistentes sobre os outros biomas brasileiros, que ainda não foram convenientemente estudados, como a Caatinga, que sabemos ser também muito rica em endemismo.
O fato de ser o país que concentra mais endemismo em princípio deveria trazer vantagens enormes para o Brasil no desenvolvimento de novos medicamentos. Somos um país abastado em termos de biodiversidade e em termos culturais, o que faz muita diferença nas pesquisas da etnofarmacologia.

Natureza e gente
No caso do Brasil, a liderança em termos de biodiversidade se soma à grande diversidade humana, expressa por diferentes culturas locais. O país tem 232 etnias indígenas e 1.340 comunidades quilombolas oficialmente identificadas e reconhecidas (Cunningham, 1996). De nada adiantaria se eu tivesse só as plantas e não tivesse os índios que as descobriram. Da mesma forma, seria inútil eu ter os índios se eles não tivessem as plantas. No Brasil natureza e cultura se somam – o que falta é gente investigando essa imensa riqueza. É cruzando o elemento natureza e do elemento cultura local que se obtêm as melhores informações. De pouco adianta se só os bichos estiverem usando as plantas medicinais... E também de nada valerá se você tiver índios, mas não tiver plantas.
Por isso digo que o Brasil deveria ser o país mais importante do mundo em termos de descoberta de novas drogas, pois é comprovadamente a região com mais biodiversidade do planeta. Isso é ponto pacífico entre os especialistas, inclusive da área de farmacologia. Somos campeões em biodiversidade biológica e também no elemento humano, com muita diversidade de culturas.

Medicinas diferentes
O Brasil é ponto de encontro de tradições médicas de índios, europeus e africanos e suas combinações em uso por diferentes comunidades locais. Temos, por exemplo, os ribeirinhos amazônicos, os caiçaras, os jangadeiros – populações que não são nem índio nem afro, mas que foram constituídas pela convivência de gente de diferentes origens. São populações que tem muito conhecimento dos recursos naturais das regiões em que vivem. O professor Diegues da Universidade de São Paulo (USP) trabalhou com o mapeamento da distribuição geográfica das mais importantes culturas regionais do país, exceto índios. Ele localiza, por exemplo, os ribeirinhos amazônicos e os caiçaras do litoral de São Paulo e de Santa Catarina. O mapa foi feito no ano 2000 por Edes Etiel e registra as principais populações tradicionais não indígenas do Brasil. Estão incluídos praieiros, caboclos ribeirinhos da Amazônia, extrativistas de babaçu, sertanejos/vaqueiros, jangadeiros, caiçaras, pescadores artesanais, açorianos, ribeirinhos não-amazônicos, caipiras, sitiantes, pantaneiros, campineiros, quilombolas...
Desafios da etnofarmacologia
Na etnofarmacologia nós procuramos os médicos de cada cultura e entrevistamos esses encarregados da medicina e da cura, segundo cada sociedade. No candomblé são os babalorixás, no espiritismo os médiuns, na umbanda é o pai-de-santo.
Na Amazônia, por exemplo, é indispensável consultar um rezador, uma parteira, um curador. Cada lugar vai ter um medico diferente, um sistema de medicina diferente, que vai usar tanto planta como produtos vegetais com óleo, resina, látex, tanto animais como produtos animais, como a pequena pererequinha. Tudo isso tem de ser percebido e anotado. É preciso identificar a planta ou animal. Eu, por exemplo, tive problemas para achar o sapo canuanu (Phyllomedusa bicolor, na verdade uma pequena rã) usado como remédio na Amazônia. Nunca consegui ver esse bicho no mato porque ele vive no alto das árvores e se aloja em tocas a 30 metros de altura. Eu só escutava a sua vocalização, os caboclos me alertaram para o som produzido pelo animal. E foi assim que eu acabei por só conhecer o sapo pelo som que ele emite. Durante dias a fio procurei coletar esse animalzinho. Mas o máximo que consegui foi gravar sua vocalização no meio da floresta. Esse é um exemplo de que em etnofarmacologia precisamos usar métodos de outras disciplinas, como os da antropologia cultural e da etnografia. A gravação do som foi fundamental para identificar o animal nos arquivos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Além dessa atenção redobrada e difusa para as informações que chegam, o pesquisador de outras culturas também deve tomar cuidado, saber como se comportar nesses ambientes onde ele é uma visita. A situação não deixa de ser irônica: eu chego à casa de uma pessoa e digo: “Vou passar um ano aí na sua casa, mas fique à vontade. Vou ficar na sua sala, ver como você faz o feijão, ver como você trata sua mulher, como você trata ou não trata seu filho, mas fique à vontade...”

Trabalho de campo
Quando o pesquisador passa um tempo estudando uma comunidade, ele acaba por se incluir nela, por fazer parte dela. Os colaboradores também vão adquirindo interesse pelo trabalho do pesquisador. Mas é preciso ter distanciamento para fazer as perguntas e interpretar os dados. O etnofarmacólogo tem de ter cabeça de antropólogo e não interferir nos valores locais ou interferir o mínimo possível, se é que isso é possível. Tem de aprender como lidar com as pessoas e saber o que falar - e principalmente o que não falar -, como se vestir e tudo o mais, de acordo com os valores daquela população. Esses cuidados são necessários porque o pesquisador pode sem querer dar uma direção errada para a pesquisa e incluir dados que não têm nada a ver. O caboclo diz berinjela e o pesquisador anota abobrinha, por exemplo. Gosto de citar o caso que aconteceu com uma pessoa que conheci. Esse pesquisador foi fazer um levantamento numa comunidade de uma região de represa e chegou todo feliz no laboratório: “Vamos testar o aguapé como analgésico! É assim que ele é usado pela comunidade X... Eu estive lá e vi.” O pesquisador explicou que um caboclo lhe contara que usava aquela planta aquática flutuante que dá belas flores roxas para curar dor de cabeça. Todos se ficaram animados. Mas fizeram testes em ratos e nada obtiveram. Pesquisaram em camundongos e também não deu resultado. Testaram extrato, infusão, tintura... e nada! O pesquisador então voltou para a comunidade que havia estudado e foi conferir como é que os locais usavam o aguapé. Um rapaz da comunidade lhe mostrou como era empregada a planta: ele pegou uma touceira na margem do rio e colocou-a sobre a cabeça. “Quando está muito sol, eu me cubro com aguapé molhado e assim não tenho dor de cabeça”, explicou. O caboclo estava certo: usava o aguapé como chapéu para se proteger do sol e do calor mais forte do dia, e com isso se defendia de insolação. Esse detalhe de como a planta é usada parece bobagem. Mas, como estamos vendo, faz toda a diferença... Quando o pesquisador está numa comunidade local, como ele escuta o que estão lhe dizendo, como ele entende o que está coletando de informação? É bom ter isso em mente porque visitar uma comunidade e fazer pilhas de anotações pode não servir de nada se você não estiver atento aos detalhes. Você tem de estar presente o tempo todo, tem de observar. Aí vai perceber que muita coisa que as pessoas de uma comunidade falam não é exatamente o que elas fazem nem o que elas pensam – exatamente como acontece em nossa sociedade, em que é comum as pessoas pensarem de um jeito, falarem de outro jeito e agirem de uma terceira forma diferente... Tenho de assumir esse risco como cientista porque sei que sou humana e que um ser humano erra. As pessoas são assim mesmo, tendem a se guiar por ideias preconcebidas. Pode acontecer de o pesquisador perguntar a uma mulher: “Você bate no seu marido?” e ela responder: “Não, não bato” e momentos depois o pesquisador presenciar essa mulher espancando o marido no meio da aldeia. Só observando é que você consegue ajustar a fala das pessoas à realidade. É preciso estar atento, não acreditar de saída no que está sendo dito e sempre observar o que está sendo feito.
Estada de um ano
O indicado é o pesquisador de etnofarmacologia ficar pelo menos um ano na comunidade que está estudando. O período de um ano, de janeiro a janeiro, é perfeito porque é necessário que o pesquisador acompanhe os ciclos da natureza, precisa colher as plantas com flor ou com fruto, para facilitar o trabalho do taxonomista que vai confirmar o nome científico da planta. Sem esses detalhes como flores e frutos o taxonomista não consegue identificar a planta com a precisão necessária. Como a floração e a frutificação se seguem e se alternam ao longo do ano, esse é o período perfeito para colher material permite identificar a planta sem deixar nenhuma dúvida. Se você estiver numa aldeia indígena, o prazo de um ano facilita inclusive a comunicação, pois no começo você dispenderá muito tempo para estabelecer uma espécie de relação de namoro com os índios que vão te passar as informações sobre as plantas. Seria absurdo você chegar numa comunidade indígena isolada e ir logo propondo: “Vamos lá para o mato? Quero que vocês me mostrem as plantas que vocês usam...” É impossível. Primeiro você tem de “chegar nas pessoas”, é preciso passar por uma fase de namoro. Para que as pessoas passem informações sinceras e confiáveis, você precisa de uma fase anterior de bom relacionamento, precisa criar laços de confiança com ela. É importante relacionar-se bem com as crianças, por exemplo. Depois dessa fase de namoro é que vem o casamento. “Vamos para o mato, agora que eu confio em você e você confia em mim?” A pergunta fica muito mais sensata nessas condições.
Mas essa fase de namoro com uma população local em geral se estende por seis meses, é preciso ter paciência. Digamos que eu esteja numa comunidade de quilombolas afrodescendentes: eu faço a pesquisa, reúno os dados e os levo para um laboratório com a dica de que deve ser procurada atividade analgésica naquela planta ou produto, por exemplo, baseado no fato de eu ter visto que as populações locais usam essa planta ou produto para aliviar dores. Assim eu vou arquivando as informações do meu levantamento – alias, para ser honesta, não do meu levantamento, mas do levantamento deles, que eu estou extraindo. O conhecimento é deles, não é meu. Os laboratórios da floresta nós sabemos que os remédios da indústria farmacêutica nos moldes ocidentais dominantes são testados em animais. Sabemos que cada planta é testada em ratos, camundongos, beagles para chegar a uma constatação científica de seus efeitos. E aí nos perguntamos: “Mas no mato como é que os índios testaram essa planta?”, “Como eles chegaram ao conhecimento que têm sobre essa planta?” A resposta é: “Eles não testaram em roedores, eles testaram na sogra!” E a piada de certa forma é verdadeira: durante inúmeras gerações muita gente foi vendo que a velhinha doente que consumiu determinada planta morreu – e que outra que se tratou com outra melhorou... Trata-se de um conhecimento que já vem se acumulando na memória da comunidade ao longo de séculos e muitas gerações. E eu quero frisar que esse conhecimento que as comunidades locais produzem tem um valor, tem um preço. E não estamos falando de valor monetário, de valor econômico, é um valor de outra ordem, muito mais precioso: o do conhecimento humano. Pelo meu trabalho de etnofarmacobotânica, o conhecimento dos indígenas e populações locais que pesquisei se soma ao da humanidade, contribui para ampliar o conhecimento universal. Mas não se trata de um conhecimento que eu produzi, eu simplesmente fui lá e resgatei esse conhecimento que determinada população local produziu – sabe-se lá ao longo de quantos milênios... O conhecimento é dessa comunidade, não é meu. Eu apenas fiz um resgate, empacotando o conhecimento deles em assuntos como “dor de cabeça”, “dor de dente”, “dor de ouvido”, “matar piolhos”. É só prestar atenção para não achar que aguapé é uma planta analgésica quando na verdade o índio a usa simplesmente como chapéu úmido para prevenir insolação... Numa situação ideal uma pesquisa dessas desenvolve um medicamento e ganha royalties.

Corrida para produzir remédios
Um levantamento mostrou que 80% dos laboratórios orientam as pesquisas que orientam a criação de seus produtos pelas informações etnofarmacológicas que obtém da literatura e dos bancos de dados. Ainda são poucos os que mandam pesquisadores em campo. No meu caso quem testa os remédios das minhas pesquisas não é minha sogra... Eu identifico a substância, faço testes em ratos, analiso a estrutura química da substância. Depois eu texto em animais e depois em pessoas. É assim que surgem os medicamentos que são patenteados e recebem royalties. Mas é bom sempre ressaltar que a fonte das informações da etnofarmacologia é sempre tripla: além do laboratório (porque você não consegue a patente se não tiver um laboratório) estão presentes a universidade que aposta e banca a pesquisa, e os índios, fonte primária dos dados.
A meu ver, essa visão laboratório/universidade/comunidade seria a maneira ideal de encarar esse tipo de atividade econômica. Eu e o professor Carlini propusemos isso no ano 2000, mas infelizmente demos com os burros n’água. Fomos acusados de biopirataria, puseram-nos a plaquinha de biopiratas. O problema é que não conseguimos desenvolver nem um medicamento, mesmo diante do grande potencial com que nos deparamos. Na época, ficou combinado que receberíamos da Fapesp a quantia de R$ 1,4 milhão de reais para fazer um estudo de dez anos. Esses R$ 1,4 milhão bancariam as atividades nos dois primeiros anos do projeto. A meta era testar em ratos drogas de plantas usadas por índios e comprovar ou não sua eficácia. Mas muitos anos se passaram desde 2001, quando o projeto foi aprovado e infelizmente não chegamos a lugar nenhum. Nesse meio tempo com certeza os verdadeiros biopiratas levaram muita coisa para fora do país.
Posso garantir que nosso trabalho não é e nunca foi de biopirataria. Meu trabalho é de uma pessoa que vai lá, perde o marido, deixa o filho com a mãe e passa anos fora de casa estudando. É um trabalho que precisa desse retiro sociológico, desse tempo que o pesquisador passa convivendo com determinada comunidade. “Ah, mas hoje temos tecnologia”, muita gente pode alegar. “Vocês podem entrevistar um índio pelo Skype, por exemplo.” Já vou adiantando que não é viável entrevistar um pajé pelo Skype, a gente tem de ir no lugar em que ele vive.
Geralmente o contato com uma nova medicina envolve lidar com povos isolados, que vivem em regiões distantes e de difícil acesso. Se o acesso for fácil, os habitantes dessas comunidades não iriam usar o serviço das parteiras nativas, eles iam levar para dar à luz no hospital da cidade. O fato é que o pesquisador de etnofarmacologia frequentemente tem de ir para lugares de difícil acesso, levado por jipe de tração nasquatro rodas ou por barco. Eu preciso viajar cerca de 12 horas de barco para chegar a uma das comunidades que estudei, por exemplo.
A pesquisa etnofarmacológica é uma atividade fascinante, mas tem esse alto preço: é preciso abrir mão de tudo. Garanto que não deve existir muita gente no mundo que se disponha a abrir mão de sua vida particular, de seu cotidiano por causa de algum estudo ou trabalho... Mas os resultados são sempre muito bons e frequentemente surpreendentes.
E o que acontece se você for uma universidade ou laboratório e quiser fazer um remédio, mas não tem uma hiena para mandar a campo? A resposta: você nesse caso usa os relatos das hienas que foram antes... A alternativa é estudar o que já está nos livros, publicações e bancos de dados. Em vez de mandar gente para o mato, o laboratório se guia pela literatura.

Lado bom e lado ruim
Para demonstrar que as plantas são como nós e também têm seu lado bom e seu lado ruim, vou listar a seguir algumas plantas contraindicadas para gestantes, porque os princípios ativos que eles contêm provocam contrações uterinas, podendo causaraborto:
Sene
pessegueiro (Prunus pudica),
erva-de-santa-maria (Chenopodium ambrosinoides L.),
arnica (Arnica montana L.),
babosa ou aloé (Aloe vera L.), romã (Punica gratíssima).
Informações extraídas de Gestação, amamentação e plantas medicinais combinam?
Riopharma XII (57), 2003. Uso racional das plantas medicinais – um compromissofarmacêutico.

Constatamos de vez que, como nós, as plantas têm seu lado bom e seu lado ruim – elas nem sabem disso, elas simplesmente estão ali no mato... Dependendo da dose, um remédio pode se transformar em veneno. E isso não depende só da dose como também da via de administração, de que parte é usada... vários fatores vão definir se a planta faz bem ou faz mal. Outro exemplo de que me lembro, além das plantas que acabamos de ver, como sene e arnica, é o hortelã. A mulher grávida ou recém-parida pode se sentir nervosa, ansiosa.
Nesses casos é comum algum vizinho indicar um chá calmante caseiro: “Ah, tome chá de hortelã, você vai ficar mais calma”. Pois a verdade é que as grávidas e parturientes não podem tomar chá de hortelã, que é abortiva. Por isso minha advertência e conselho para as gestantes e mulheres que amamentam é: “Gestante não deve usar planta nunca, de forma nenhuma”. Todas as substâncias que a mãe ingere passam para a criança, pelo cordão umbilical ou pelo leite. Os estudos com ratos, camundongos, beagles me dão uma boa noção do que acontece com o ser humano. Mas eu só vou ter certeza do que acontece quando passar pelas fases I, II e III até chegar na fase clínica, dentro dos protocolos internacionais que regulamentam as fases de produção de um medicamento.
O fato é que é contraindicado que as gestantes usem plantas, pois sabemos muito pouco sobre as contraindicações e efeitos colaterais. Um remédio eficaz para tratar uma doença pode, por exemplo, ter efeito teratogênico, isto é, deformante do feto. Isso precisa ser pesquisado. E podemos saber se isso ocorre em ratos, mas o medicamento pode agir de forma diferente no organismo humano. Já está cientificamente comprovado que o hortelã, por exemplo, contrai o útero e reduz a produção de leite, o que o torna contraindicado para gestantes e lactentes.
Até as tradições populares mais inocentes podem ser perigosas, como os conselhos de caipiras e sertanejos para os casos de nervosismo e ansiedade: “Tome um chá de ervacidreira...” Hoje sabemos que uma gestante nunca deve tomar chá de erva cidreira, e até constatamos que tribos indígenas usam as raízes dessa planta para contrair o útero e acelerar o trabalho de parto.

Um alerta para as grávidas
Viajando pela Amazônia pude constatar a importância do alerta de que nenhuma planta é inocente para as mulheres grávidas, que devem evitar todo tipo de planta medicinal. Quando uma ribeirinha fica grávida ela consulta a parteira seis meses antes do parto para fazer o pré-natal. E no dia do parto a parteira volta, com seus apetrechos característicos: cachaça, pimenta-do-reino, raiz de capim-limão (Cymbopogon citratus, também chamado erva-cidreira), banha de paca ou de anta. Ela faz uma decocção com algumas gotas dessa banha mistura com os outros ingredientes e dá para a pessoa beber. Constatei que isso é realmente muito eficiente: a criança nasce praticamente espirrada. E fico imaginando o problema que é a pessoa não saber que o inocente chá de capim-limão tem essa propriedade de contrair o útero, que pode provocar aborto.
Em 1995 eu já tinha consultado os arquivos do INPA e feito testes com ratos. Constatei que as raízes do capim-limão realmente provocam contrações uterinas. Como o ribeirinho testou isso? Ele certamente usou dados sensoriais, dados da memória, analogias e foi juntando tudo isso.

Como os índios descobrem os remédios?
Já vimos a distribuição da biodiversidade no mundo e agora vamos tratar das maneiras que os laboratórios se utilizam para ter os indicadores de bioativo potenciais. Como os índios fazem? Quais são as abordagens e os métodos mais adequados para o pesquisador que está no meio do mato? Como os laboratórios fazem para descobrir seus novos remédios? O primeiro elemento a considerar é o que eu chamo de memória sensorial. Aquele indiozinho que está no meio do mato cresce ouvindo as coisas que o avô fala sobre determinada planta e para identificá-la ele pega, cheira, lambe, rasga... Como o nosso, o universo dos índios é lúdico. A criança pega uma borboleta, arranca as patas, a asa, brinca com ela. E é brincando que eles aprendem sobre a vida e sobre a natureza. O indiozinho vai guardando todas essas descobertas, o cheiro, o sabor, a textura de cada folha ele vai gravando em sua Winchester. Sem nem mesmo se dar conta, desde a mais tenra infância ele vai montando seu banco de informações sensoriais. Se ele se tornar pajé, é a esse banco de memória sensorial que ele vai recorrer para resolver os problemas de seus pacientes. E que método os índios usam para organizar suas informações?
O LADO ESPIRITUAL
Uma planta nunca é encarada como uma simples planta. Para as culturas tradicionais as plantas têm uma explicação religiosa, elas são sagradas e precisam ser colhidas no tempo certo, pedindo autorização para o santo certo, existe todo um ritual.
Teoria das assinaturas
Constatei também que em geral o método de raciocínio usado pelos índios para armazenar suas informações médicas é muito parecido com o da teoria das assinaturas, sistematizada por Paracelso (Theophastus Bombastus von Hohenheim-1493-1591). Paracelso foi um químico suíço e em seus estudos chama a atenção para o fato de as coisas do mundo poderem ser interpretadas de acordo com sua aparência externa. A aparência das coisas, sua forma, cor e textura, revelaria uma assinatura de para que servem essas coisas. Assim, analisando a aparência externa de cada planta (assinatura) seria possível ver nela assinaladas suas características e virtudes. O índio também observa como a planta é usada na natureza, como os animais se utilizam dela, por exemplo. E o índio vai usar principalmente a intuição para guia-lo nesse raciocínio.
Um exemplo de teoria das assinaturas é o da semente que tem o formato de uma peçonha de cobra e que no pantanal é usada para tratar picada de cobra. Outro exemplo é a planta chamada kapran-kohiré, que em língua indígena significa “espinha de tartaruga”, que vamos abordar adiante.
Vimos que a teoria das assinaturas de Paracelso garante que a natureza revela as características e propriedades das plantas para quem souber ler isso. Segundo essa teoria, se nós observarmos atentamente cada planta ou animal com certeza seremos alertados sobre a melhor forma de usá-los em nosso próprio benefício. Dentro do complexo pensamento dos indígenas, que em seu livro O pensamento selvagem, Levi Strauss demonstrou ser tão sofisticado como o nosso pensamento ocidental. E o raciocínio predominante nessa medicina tradicional é o da analogia. Você está com problemas de rim? Então vou te fazer um acha com sementes que têm formato de rim. É um raciocínio que também é parecido com o da homeopatia de Samuel Hahnemann, em que “o semelhante cura o semelhante”.
E é fácil constatar que nós somos mesmo assim, tendemos a pensar guiados por analogias. Isso explica os apelos da publicidade que agora está mais regulamentada. Mas antes era fácil ver uma marca de xampu associada à imagem de uma mulher bonita e gostosa, sugerindo que o uso desse xampu vai nos contaminar com aquela
beleza e gostosura que as imagens apresentam. O fato é que o tempo todo estamos fazendo analogias desse tipo – esse fenômeno não ocorre só entre os índios. Esse método das analogias foi o que ajudou esses índios a memorizar suas tradições. Eles resolvem seus problemas usando essas associações e analogias em que se baseia seu sistema médico. Para casar ou para “ficar”. Outra demonstração de raciocínio semelhante ao da teoria das assinaturas de Paracelso é dada pelo seguinte exemplo que coletei entre os índios Krahó, no Centro-Oeste do Brasil. Lembro que eles me disseram: “Vem ver, Pequê, esta planta serve para casar e esta aqui para namorar”. Os Krahó me chamam de Pequê. “Pequê, veja que esta planta é para casar.... Pequê veja que esta planta é só para namorar”, explicaram-me. Hoje em dia em vez de namorar já devem estar usando a palavra “ficar”, amplamente divulgada pelo país afora... E eu perguntava: “Mas como vocês fazem para essa planta promover o casamento? E eles explicavam: “A gente pica esses galhos entrelaçados, faz um pó bem fininho e põe na comida do rapaz com quem queremos casar”, contou uma índia. Segundo a índia, uma vez ingerida a planta, o rapaz fatalmente acabará pedindo em casamento a moça que lhe administrou a poção. O assunto, aliás, me interessou muito... Sempre fui curiosa quando o assunto é casar, separar.... Costumo colecionar receitinhas de todas as comunidades locais que visito.... Quando eu perguntei para a índia minha informante por que uma planta era para casar e outra servia só para namorar, ela foi logo me advertindo: “Mas você não está vendo: nesta planta para casar os galhos nascem juntos e vão se enrolando um no outro, os galhos se cruzam e se enrolam. Pode bater vento, pode cair tempestade, nada consegue separá-los”. É o que acontece com o casamento: tem horas que você pode até ter vontade de dar no marido uma bica que o mande para a África, mas você na verdade não quer se separar dele e quer continuar vivendo junto com ele.
Acabamos de ver a receita para o casamento e a sua explicação. Agora, para os que querem só “ficar”, vamos revelar a receita para arrumar namorado que a índia Krahó me ensinou. Ela me mostrou uma orquídea e explicou como a flor deveria ser esmagada e passada na pele. “Esta é a receita para namorar: você pega a seiva dessa
orquídea, que é doce, e passa no corpo. Quando você encontrar a pessoa, encoste nela e vá ficando...” Como identificar a teoria das assinaturas nesses casos? Essa é a parte mais louca e poética do raciocínio flagrado pela pesquisa. Para os Krahó, essa orquídea simboliza o próprio ato sexual, basta olhar atentamente a flor: o gineceu, que é o órgão feminino e fica no meio da flor, pela aparência fálica simboliza na verdade o órgão masculino, enquanto as estrias nas pétalas simbolizam pelos pubianos onde esse órgão masculino está se inserindo. É possível enxergar a flor como representação do coito. E para esses índios é óbvio que essa flor serve para fazer água de namoro: não há o que discutir ou questionar... Esse é um raciocínio típico dessas culturas nativas. Outro exemplo de aplicação da teoria das assinaturas é a planta chamada pau-de-leite.
De todas as partes dessa árvore, tronco, folhas, raiz, sai muito látex branco. Para os índios como para nós também, o líquido branco representa o leite materno. E o que o leite materno é para nós durante toda uma importante fase da nossa vida? O leite materno é alimento, é fortificante. Pois os índios usam esse látex exatamente como fortificante. É o mesmo raciocínio que indica usar as partes vermelhas para fortalecer o sangue e tratar anemias, como no caso da perereca-vermelha. Enfim, dá para notar que os índios usam as mesmas pistas apontadas por Paracelso em sua teoria das assinaturas.

Fumaça calmante
Outra coisa fácil de notar e que eu mesma pude presenciar e constatar é que os índios observam as relações entre os animais e as plantas. Por exemplo, existe uma planta que os Krahó chamam de kapran-kohiré-rô, esse é o som da palavra na língua timbira. Kapran quer dizer “tartaruga”, e kohiré significa “espinha dorsal”, “coluna vertebral”. E o que essa “espinha da tartaruga” transmite? Lerdeza, por exemplo. E de fato o consumo dessas folhas nos deixa tão lentos como tartarugas. Curiosamente, as folhas dessa planta se parecem com as da maconha.
Mas como foi que os índios descobriram a utilidade dessa planta? Essas folhas são de fato fantásticas, fazem efeito semelhante ao da maconha, relaxam, propiciam sono... Pois os índios usam a planta para acalmar os filhos e fazê-los dormir. De fato, quem é mãe ou pai conhece a fundo esse problema que é aturar filhos pequenos o tempo todo.
Tem horas que a pessoa sente vontade de dar uma bica nos filhos, de lança-los para o espaço – e olhem que falo por experiência própria... Pois a solução que os índios dão para esse problema é faze um cigarro com essas folhas secas e picadas. Então a mãe deita o moleque na rede e lhe dá o cigarro para fumar. Ele fica calminho, calminho e logo apaga... Quem tem filhos sabe a vontade que dá de fazer isso... Eu cheguei a perguntar para um índio: “Mas como vocês descobriram que essa planta serve para acalmar?” Ele me respondeu: “Tanto eu como meus antepassados caçadores percebemos que quando os veados comem dessas plantas eles ficam mais lentos e é mais fácil caçá-los”.
Quer dizer, os índios descobriram as propriedades da planta observando seu efeito nos animais. E viram que ela é capaz de dopar o animal mais rápido do Cerrado, que é o veado. Esse tipo de observação constitui o laboratório em que os índios se baseiam. O negócio é observar os animais – e a sogra... Mas não precisamos ir longe. É só lembrar do café, que já chegou a sustentar a economia brasileira na primeira metade do século passado.
As propriedades estimulantes do café teriam sido descobertas por um pastor de uma tribo nômade da Etiópia, região de origem dessa planta.

Vozes da intuição
Quero ressaltar aqui a importância da intuição para a pesquisa científica e tecnológica. As pessoas que descobrem coisas são em geral guiadas pela intuição. Na sua teoria das personalidades, o psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) ressalta que existem pessoas que são mais intuitivas naturalmente, que são portadoras de uma personalidade marcada pela intuição. Uma característica dessas pessoas que descobrem é justamente a personalidade intuitiva. Segundo Jung, a intuição é um tipo de conhecimento. A intuição é, antes de mais nada, uma forma de obter conhecimento. A intuição está diretamente ligada com o que chamamos de percepção através do inconsciente, sem o recurso das sensações externas. E de fato sabemos que as sensações proporcionam conhecimento. Elas nos trazem conhecimento: olhamos, pegamos, cheiramos, lambemos e ficamos conhecendo uma planta, por exemplo. A intuição é diferente, pois não envolve sensações. A pessoa só tem percepção, ela conhece tão bem o seu ambiente que consegue resolver muitos problemas apenas reagindo intuitivamente a eles e sem usar o raciocínio lógico. Os problemas estão tão inseridos no contexto da vida da pessoa que ela os resolve mecanicamente, de forma automática.
Os sonhos são um exemplo de intuição que pode revelar conhecimentos. Esse é o caso de um dos pais da química o alemão August Kekulé (1829-1896), que conseguiu descrever a estrutura química do benzeno a partir de um sonho que teve, com uma cobra que mordia a própria cauda. Esse conhecimento, esse insight que os sonhos podem revelar, vem diretamente do nosso inconsciente.

Pensamento selvagem
O conhecimento que obtemos das sensações, que é consciente, difere, portanto, do conhecimento que nos é dado pela intuição, que é inconsciente. Certa vez eu andava por uma trilha com um índio Krahó quando ele parou e me falou, apontando: “Está vendo aquela planta? Eu estou estudando aquela planta”. Nos aproximamos dela e paramos para observar: as folhas estavam tomadas de galhas, que enchiam sua superfície de bolinhas e rugosidades. As galhas são produzidas pela ação de pequenos insetos, que fazem as plantas desenvolverem pequenos tumores dentro dos quais esses bichinhos se alojam. O índio me falou que estava procurando plantas de folhas assim rugosas contaminadas pela galha porque seu filho estava com uma doença que fazia sua pele ficar rugosa. “Vou ver se essa folha resolve o problema do meu filho”, disse o índio.
A indicação do uso daquela planta específica não veio do nada. Não dá para alegar que o índio esteja usando um critério aleatório para escolher a planta. Ele se guiou por um raciocínio bem rigoroso. Usou sua memoria sensorial, a teoria das analogias, a observação dos animais e principalmente a intuição.
Um exemplo de as substâncias vegetais não são descobertas apenas na base da tentativa e do erro é o ayahuasca. Essa bebida alucinógena não foi obtida na base da tentativa e do erro, pois combina duas plantas diferentes. Se os índios fossem combinar aleatoriamente as mais de 55 mil plantas que existem na Amazônia para saber qual combinação faz efeito, essa pesquisa iria demorar uma eternidade. Como eles conseguiram reunir duas plantas que são quimicamente complementares nesse universo de 55 mil diferentes plantas? Outro dia colhi um exemplo de planta que ilustra bem a teoria das assinaturas, embora eu não saiba para que serve... Encontrei no câmpus da Universidade Federal de Mato Grosso uma espécie que produz folhas em forma de borboleta. Olhar para essa folha nos dá consciência de como nosso pensamento é associativo, nós logo a associamos com uma borboleta... Esse é só um exemplo para ilustrar o assunto que estamos abordando. Essa maneira de pensar é automática na gente, apesar de conhecer o rigoroso método científico, é a poesia que nos guia na vida, que guia os homens dos mais diferentes povos. O raciocínio por analogias e metáforas está no nosso sangue, nos genes que compartilhamos com os animais. Todos temos lá para trás um rabinho de selvageria.

Presença do imaginário
Toda vez que um etnofarmacólogo se propõe a resgatar a medicina popular ou tradicional sabe que vai se deparar com forte conteúdo religioso. Além dos ingredientes o pesquisador vai se defrontar com rituais e explicações mágicas. E de fato na história de todos os povos a medicina e a religião meio que se complementam.
Não faz sentido encará-las separadamente. Um exemplo clássico de associação de religião e medicina popular pode ser conferido na cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará. Lá existe um enorme museu dedicado ao Padre Cicero (1844-1934), um padre que também foi líder messiânico.
O museu dedicado ao padre Cícero exibe ex-votos e estátuas de pessoas que fizeram a romaria para o santo e alcançaram graças. E existe todo um repertório de plantas medicinais cuja recomendação foi dada ou é atribuída ao padre, que é um santo popular. É impossível separar essa mistura de religião com medicina popular, pois
uma de certa forma explica e reforça a outra. E é assim que temos uso de plantas medicinais no xamanismo, na umbanda, no catolicismo. A medicina popular sempre vai ter um pezinho na religião.

Estudos do CEE da Unifesp
Agora vamos apresentar rapidamente alguns trabalhos do CEE (Centro de Estudos Etnobotânicos e Etnofarmacológicos) da Unifesp. Quero ressaltar que a missão do CEE é desenvolver estudos interdisciplinares, com colaboração de botânicos, zoólogos, farmacólogos, químicos, agrônomos, antropólogos, geólogos, microbiologistas e médicos O CEE trabalha com diversas instituições, como Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Universidade de São Paulo (USP), Instituto Adolpho Lutz e outros. O foco das pesquisas são as práticas médicas de dezenas de comunidades locais de todos os tipos espalhadas pelo Brasil e algumas fora do Brasil.
O CEE foi criado em 2007 no Departamento de Ciências Biológicas do câmpus de Diadema. Dentre as dezenas de estudos desenvolvidos ou em desenvolvimento, vou destacar um realizado na Amazônia, que foi meu tema no mestrado e seria depois retomado e ampliado por uma aluna de doutorado.
Em 1995 eu estudei pessoalmente os caboclos ribeirinhos da várzea do rio João e em 2010 foi a vez de uma aluna pesquisar uma comunidade que vive às margens do rio Unini, na mesma região. A ênfase em estudar diferentes comunidades em diferentes regiões tem enriquecido o banco de dados do CEE, que pode ser consultado na internet e reúne pesquisas como uma que fiz em 2001 entre afrodescendentes do Pantanal e entre os índios Krahó da região do Cerrado, outra que realizei em 2007, entre sertanejos do Nordeste, uma realizada em 2008 entre umbandistas e migrantes da periferia de Diadema e a que foi feita em 2009 entre índios Guarani. São pesquisas que abrangem diferentes biomas, como Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica e Campos Sulinos. O conjunto resulta num importante painel das medicinas tradicionais brasileiras. Todos esses estudos estão no nosso site e podem ser consultado por qualquer interessado. Os arquivos podem ser baixados em PDF.
As matérias primas medicinais que mais se destacam na Amazônia são os produtosvegetais (seivas, látex, resinas, óleos, gomas etc.) e animais (secreção de sapos,banha).

Os defumadores da umbanda
A Mata Atlântica tem sido o bioma mais estudado, justamente porque fica perto das grandes cidades do Sudeste, como São Paulo e Rio de Janeiro. Outra vantagem é que é mais fácil vigiar o aluno quando ele está relativamente perto. Como professora eu sei que o aluno é mesmo uma praga. Você manda um para uma pesquisa no meio da selva amazônica, mas tanto podem voltar três como nenhum. Aqui perto na Mata Atlântica fica mais fácil acompanhar o que o aluno está fazendo e ver o tamanho do estrago.
Mas não é preciso ir muito longe para fazer pesquisas de etnofarmacologia. Fizemos estudos aqui na periferia de Diadema, cidade onde fica o câmpus da Unifesp. Fomos pesquisar os rituais de defumação na umbanda, Constatamos que Diadema tem mais de 220 centros de umbanda e até uma Federação de Centros de Umbanda. Entrei em contato com o presidente da Federação, que se chama Cássio e é um amor de pessoa, que muito colaborou com os pesquisadores. Pedi que Cássio nos orientasse sobre o uso que a umbanda faz dos defumadores. A meta foi pesquisar as propriedades medicinais dos defumadores e da defumação.
Uma das propriedades que procuramos investigar foi a ação ansiolítica da fumaça, pois já sabemos que muitos aromas de incenso são capazes de nos acalmar e serenar. Também ficamos sabendo por meio de um estudo publicado na revista Nature, comprovando que os incensos industrializados podem irritar a mucosa faríngea e ter ação cancerígena por causa da química. Isso nos alertou para as possíveis contraindicações desse tipo de tratamento, mas nos pareceu evidente que o problema nos incensos comerciais está mais na química usada para sua confecção industrial e menos nos outros ingredientes.
Queríamos conferir os incensos de casa de umbanda, que não têm química e são feitos jogando cascas, resinas e folhas secas diretamente sobre brasas para produzir fumaça. Investigamos esses “incensos orgânicos” num primeiro momento para saber se as plantas usadas nos rituais da umbanda teriam propriedades calmantes e
antiansiolíticas.
Uma aluna de iniciação científica da Unifesp de Diadema encarregou-se de frequentar os rituais e pesquisar quais eram as indicações medicinais de cada planta usada nos defumadores. Uma das plantas a que chegamos foi a guiné ou tipi (Petiveria alliacea) que faz parte da composição do defumador de sete ervas. Outro antigo nome popular da guiné é amansa-senhor e remete a uma história bastante interessante do tempo da escravidão. Era comum os senhores abusarem sexualmente das escravas. As cozinheiras, que trabalhavam diretamente na casa do senhor, eram alguns dos alvos mais visados. Mesmo sendo casadas, os senhores abusavam delas, como era costume.
Considerando que os maridos dessas mulheres abusavam não achavam interessante dividir as esposas com os senhores, os escravos chegaram a uma engenhosa solução para o problema. As mulheres secavam e trituravam folhas de guiné até transformá-las em pó fino, que acrescentavam no feijão que faziam para seu senhor.
Por causa da composição química da planta, sabemos que a pessoa que faz uso crônico de altas doses acaba desenvolvendo um quadro de falta de apetite sexual e debilidade mental. Mas isso só ocorre pelo uso contínuo de grandes quantidades da planta, que tem muito uso em medicina popular. Outra planta usada em defumadores nos rituais da umbanda é a arruda. Um médium chegou a dizer que essa planta é ainda mais forte que a guiné.

Rituais com ratos
Para testar o efeito dos defumadores em ratos, foi preciso criar caixas de acrílico proporcionais a um salão de rituais de uma casa de umbanda. Simulando o ambiente de um ritual e fizemos os ratos participarem das sessões de umbanda. Estabelecemos como meta investigar cientificamente aquilo que a umbanda explicava em termos de religião. Depois de deixar os ratos expostos à fumaça de diferentes defumadores por algum tempo, nós os pusemos em labirintos para testar suas reações, comparando com as de ratos não expostos às diferentes fumaças. Pois a pesquisa não deu resultados. Curiosamente, apuramos que a folha de guiné têm propriedades ansiogênicas, isto é, ela causa ansiedade – um efeito contrário ao que esperávamos. Constatamos que a raiz da guiné é que possue propriedades ansiolíticas (calmantes) - mas nos limitamos a testar as folhas, que são as partes da planta que os centros de umbanda usam. O CEE da Unifesp participou também de um projeto internacional de pesquisa. Por meio de um convênio com o Instituto Men-Tsee-Khang, dedicado a pesquisas de astrologia e de medicina tibetana, tivemos acesso a medicinas populares da Índia e do Paquistão. O estudo foi feito em 2010, em Dharamsala, norte da Índia, entre monges tibetanos refugiados. Uma aluna da Unifesp foi conferir in loco e resgatar como os médicos tibetanos escolhiam os remédios. Sabemos que seus conceitos de medicina se baseiam em noções de quente e frio, positivo e negativo, coisas desse tipo.
Uma Fito conversa entre Sérgio Tinoco Panizza e Eliana Rodrigues. www.tvpanizza.com.br - www.phytoshop.com.br - www.fitoterapia.com.br
sergio@panizza.com.brPlantas Medicinais e Fitoterápicos - Curso de Fitoterapia

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